• Vera Regina Meinhard Cobellache

Mulheres além do tempo: exemplos que inspiram nossas vidas


Trabalhar com a questão do gênero me leva a muitos questionamentos. Um deles é querer entender o que me fez durante anos acreditar que a dominação masculina não existia. Nem a construção social das relações que coloca a mulher num lugar de SER dependente, fragilizado e consequentemente inferior. Ou mesmo, a divisão sexual do trabalho.

Aceitar essa situação seria negar até então a minha existência. Eu pensava: se isso fosse verdade eu não teria alcançado minha liberdade intelectual, emocional e financeira. Muito menos galgado minha carreira como executiva internacional.

Já fui uma observadora que via o mundo segundo minhas próprias experiências. Achava que viver com essa liberdade era uma simples questão de escolha. Continuo acreditando no poder da escolha. No entanto, hoje entendo que nem todas as mulheres têm uma visão expandida das opções que o mundo lhes oferece.

Criadas dentro do paradigma da dominação masculina, da divisão sexual do trabalho e da fragilização do sexo feminino, não percebem que podem decidir ser o que quiserem. Hoje observo o perigo de homens que perpetuam o sistema, como por exemplo, o Euro Deputado Janusz Korwin-Mikke, que não somente julga, mas expos seu pensamento sobre a inferioridade das mulheres em reunião do parlamento Europeu em março de 2017. O mais trágico é constatar que muitas mulheres acreditam nisso e se submetem a este paradigma.

Dedicar-me a criar espaços para as mulheres resgatarem seu protagonismo me levou a buscar conhecimentos sobre a construção social na qual estamos inseridas. Descobri a importância de ter consciência deste sistema. Captei um novo olhar que me levou a reexaminar minha biografia e rever a origem desta minha força e liberdade de ser.

Este novo olhar me ensinou o quão importante foram as mulheres da minha vida! Quero destacar três delas pela época em que decidiram ser livres e assumirem com protagonismo suas vidas. Decidi homenageá-las neste dia 8 de março de 2017. Minha bisavó Itália (1896-1986), minha tia avó Lila (1915-2015) e, minha avó Irna (1902–1987).

Conviver com essas mulheres certamente inspirou minha visão de mundo. E uma delas, educou o homem que se tornou meu pai. Homem que me ensinou com convicção de que o mundo me pertencia e sempre me incentivou a ser livre com responsabilidade.

As escolhas da minha avó Irna, por exemplo, me ensinaram a liberdade de ser mulher gozando plenamente do meus direitos de escolha e assumindo as responsabilidades que isso implica.

Nos anos de 1920, nascida no Brasil com dupla nacionalidade alemã, lutou contra todos os preconceitos e casou-se com um homem da raça negra. Não contente de revolucionar a família com esta decisão, por volta de 1929, se desquitou mesmo com uma filha para educar. Pois é, na época não existia divórcio não! Você se tornava uma mulher que não podia se recasar e ficava mal falada.

E foi nesta época que ela conheceu meu avô, um alemão expatriado no Brasil por uma multinacional alemã. Ela se juntou com ele (este era o termo na época) e só depois do meu pai nascer e completar 3 anos, em 1937, foram para a Alemanha se casar.

Durante a 2a guerra mundial, recebeu a notícia que seu marido, meu avô, havia sido assinalado como morto. Foi então que ela decidiu fugir da tutela do sogro. Um arquiteto bem sucedido, com perfil burguês bem tradicional de Wiesbaden. Certa de que seria colocada numa caixinha burguesa dominada por homens, decidiu fugir no meio da guerra. Utilizou sua nacionalidade brasileira para se refugiar na França e ser repatriada para o Brasil.

Certamente esta decisão não foi a que tornou sua vida mais fácil. Voltava para o Brasil e para uma família que não aceitava suas escolhas. Isso significava trabalhar duro para viver e educar 3 filhos. Foi governanta, entrou como faxineira num café. Sua prontidão, vontade e inteligência a levaram rapidamente a ser promovida a gerente do café. Depois se tornou gerente de restaurante.

Tudo isso nos anos pós-guerra. O mundo era bem mais complicado para as mulheres, ainda mais no Brasil. Durante alguns anos, até que meu avô, que estava vivo, a reencontrasse no Brasil, viveu na batalha diária. Quando meu avô reapareceu, ela escolheu não voltar para a Alemanha. Parece que a burguesia alemã não tinha muitos atrativos para ela. Aceitou a ajuda financeira do meu avô para a educação dos filhos e continuou trabalhando e vivendo sua vida no Brasil.

É evidente, não vivi todas estas aventuras ao lado dela. No entanto, todas estas histórias estavam ali, presentes no meu imaginário de criança. Meu avô ficou na Alemanha, escolheu retomar a antiga vida burguesa. Como eu não sabia que ele mandava dinheiro para ela, cresci realmente acreditando que a vida de uma mulher era tomar conta dela. Meu avô era o lado lúdico da vida, passávamos férias juntos. A força vinha desta mulher. Uma admiração que era inconsciente. Não sabia nada sobre as relações de gênero, mas intuitivamente entendia que ela fazia algo extraordinário.

Criei esta realidade para mim e ela me levou para onde quis ir. Para mim, o modelo era esse. Hoje quero ir muito além do que elas foram. Quero contribuir com a mudança que acredito ser necessária para construirmos um mundo melhor e mais justo para todos. Quero trazer outras mulheres para a escolha consciente. Escolha baseada na expansão das possibilidades e na coragem para assumir as delícias e dificuldades que isso implica. Quando cada um de nós aceitar o outro como um ser tão livre quanto cada um pode ser, sem dominação, sem preconceitos é que poderemos viver plenamente o desenvolvimento sustentável.

PS: não esqueci não, guardo para outro momento a história da tia Lila e da bisa Itália!

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