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  • Vera Regina Meinhard

Etarismo não, evolução e desapego sim!



Tudo se complica quando acreditamos em um mundo linear.


Tudo tem solução quando a gente se permite e acompanha nossa evolução pessoal. Dar-se esta permissão é um passo muito importante. É necessário e por vezes doloroso, pois implica desapego e luto do que já não nos serve mais.

Para mim este processo significa cuidar do meu autoconhecimento. Vivi com esta dinâmica desde muito cedo, o que me fez entender rapidamente que a vida não é nada linear. Apesar disso, continuamos educando as crianças em um sistema no qual devemos escolher por volta dos 16 anos o que queremos ser o resto da vida. Acabamos fazendo escolhas em função do desejo dos nossos pais e mães e da situação financeira do nosso contexto. Exceto, se temos pai e mãe muito trabalhados psicanaliticamente que se tornaram capazes de nos deixarem entender que precisamos fazer nossa individuação para escolher de forma consciente. Infelizmente, as pessoas têm tendência a se deixar enganar e acreditar no paradigma da linearidade.

Como é que podemos acreditar que seremos aos 60 as escolhas dos 16 ou 25 anos?

Mesmo se teoricamente pertencêssemos a um meio extremamente favorável à maturidade emocional, nossa individuação (1) só se completaria por volta dos 25 anos.

Ou seja, a maioria de nós ao fazer escolhas para a vida profissional ainda está ancorada nos valores da família e da comunidade na qual foi educada, não fez ainda sua individuação.

Minha vida foi movida pela vontade de viver o desequilíbrio. Eu nunca sonhei com estabilidade, nem financeira, nem com aquela foto de sucesso linear. Só de ouvir sonhos ligados a ter milhões no banco para fazer o que quiser lá no futuro, me deixava com urticária. Nem sonhar uma vida com netos e netas sabendo que primeiro precisava escolher ser mãe e depois minha descendência decidir fazer a mesma escolha. Não dá para viver projetos que dependem única e exclusivamente de escolhas de outras pessoas.

Assim, para mim, a questão da continuidade do meu valor pessoal na sociedade não está ligada ao etarismo e sim à minha atitude.

É importante lembrar que estou falando de um lugar de bolha de classe média alta. Mulher branca de uma classe social no Brasil que sim, teve muitos privilégios.

Além de nós, o mundo evolui e com isto o mercado de trabalho.

Vale ressaltar aqui, que o conceito VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) existe desde 1990 e só criou asas bem depois. Em 2020, a pandemia do COVID e depois em 2022 a guerra da Ucrânia, vieram dar um choquinho, fazer a água da jacuzzi bater no bumbum e trazer luz sobre a ausência da linearidade. E, em 2021, apareceu o conceito BANI (fragilidade, ansiedade, não-linear, incompreensibilidade) que escancarou esta irrealidade da linearidade!

No final, acredito que posso dizer que nem nós nem o mundo evolui linearmente.

Diante disto, para mim, o etarismo se resume ao apego ao mundo linear.


Por exemplo, por que sempre falamos de etarismo ligado à empregabilidade CLT (2)? Por que deixamos de vislumbrar todas as possibilidades? Que tal se em função do que gostamos de fazer e somos experts sugeríssemos contratos de consultoria? Por que ainda não criamos no Brasil o emprego temporário de executivos com senioridade? Talvez porque ainda é difícil se desapegar do status que o cartão de visita CLT traz!

Fazer uma transição de carreira será incontornável.
Estamos vivendo cada vez mais tempo e com melhor qualidade de vida. Em um mundo que evolui cada vez mais rápido.

Para transitarmos pela vida com capacidade de reaprender os passos da dança em função da evolução da música, alguns fatores são essenciais. Vou trazer cinco que foram prioridade para mim: ser seu propósito, ter atitude protagonista, experimentar, acolher a vulnerabilidade e desenvolver flexibilidade.


A flexibilidade me trouxe uma capacidade importante de desapego. Saber deixar partir aquilo que já não me serve mais para acolher o novo que surge em mim e no mundo. Abrir portas para agarrar oportunidades.


Ter consciência da minha vulnerabilidade me capacitou a acolher meus medos e entender as razões deles. Quando são oriundos de crenças limitantes construídas por experiências desastrosas e marcantes, abro a porta para me tratar na terapia e psicanálise, busco criar experiências positivas que desarmem esta crença. Aos 17 anos me dei o direito de admitir que não sabia para onde queria ir. Administração? Arquitetura? Jornalista? Psicologia? Diplomacia? Escolhi a administração, porque era amplo. Precisava entender melhor como escolher a sequência, então iniciei meus processos terapêuticos por volta dos 19 anos para iniciar minha experiência como eterna aprendiz.


Experimentar foi minha dinâmica. Fiz uma carreira eclética como executiva passando por diferentes áreas: financeira, controladoria, logística, planejamento e gestão de risco, vendas, projetos, direção jurídica, relações governamentais, entre outras.


Propósito? Acredito que cada pessoa tem uma razão de ser e que sua contribuição é necessária. Isto me inclui. Sei que preciso aceitar minha evolução quando me sinto no automático, fazendo algo sem significado, sem sentir minha contribuição. Esta é a hora de me movimentar com força para ver para onde as coisas me levam.

Quando decidi mudar de vida aos 27 anos e ficar na França, evolui. Quando decidi aos 50 anos que sairia da vida executiva CLT, evolui. Hoje, 11 anos depois, vejo que evoluo de novo. Meu propósito permanece: eu danço para sair do silêncio e construir um mundo melhor conectando as vozes de todas as pessoas.

Em cada momento foi fundamental saber como utilizar meus talentos e transformar os conhecimentos adquiridos para que fossem úteis na nova trilha. Eu busquei o que amava no ser executiva e o que me fazia ter um prazer enorme antes de perder o tesão por esta vida profissional.

Foi aí que pude entender que queria continuar utilizando os meus talentos para o que sempre amei: desenvolver pessoas.

Entendi que talentos, como por exemplo, criatividade, capacidade de realizar, planejamento, liderança e assertividade seriam essenciais para eu me tornar uma empresa de uma só pessoa trabalhando com parcerias, no que eu queria. Minhas competências nas áreas financeira e jurídica, assim como minha organização seriam fundamentais para assegurar minha sobrevivência até a empresa criar asas.

Nada deve ser descartado, nossa história contribui com cada inovação do nosso ser, tudo pode ser fundamental nessa transição. Os pontos se ligam.

Atitude Protagonista é minha marca. Meu olhar está voltado para onde quero ir. Minhas ações para o que posso influenciar no meu entorno e quais oportunidades posso agarrar para chegar onde quero.

Meu movimento visa a adaptação do como, não do propósito.

É preciso saber fazer com o que temos para hoje em vez de lutar para que as coisas sejam como gostaríamos que fossem.

Esta atitude é fundamental para se lançar em formações e adquirir o conhecimento necessário à realização dos novos sonhos.

Quando resolvi sair da vida CLT investi muito em aquisição de conhecimento formal para transitar para a área de humanas. Fiz formações na França, ainda antes de pular de paraquedas: coaching durante quase um ano e certificações ligadas a evoluções comportamentais (cultura). No Brasil, fiz mestrado em sustentabilidade e governança, fiz certificação no Barrett Model (cultura), iniciei linguagem de palhaço, entre outras. Desde então, não paro de estudar. Obtive novos conhecimentos e busquei ferramentas para atuar como mentora, coach, facilitadora de equipe, influenciadora da igualdade de gênero e da evolução cultural para integração dos valores femininos no mundo organizacional. E continuo minha jornada lifelong learning!

Agora 10 anos depois vejo que meu sonho inicial de ser coach e mentora foi evoluindo para ser uma influenciadora dos valores que transformam o mundo e trazem a possibilidade do ESG (3) sair do washing.

O maior potencial do planeta são as pessoas. As organizações e os investidores-anjo precisam aprender a ter uma atitude includente, ver o potencial das pessoas em idade de senioridade.

Quem sabe transitar evoluindo e se desapegando tem muito a oferecer. No S do social as pessoas são o centro e a diversidade é um dos eixos fundamentais.

Sem um trabalho das organizações e dos investidores-anjo para considerar esta população ativa, com muito valor a agregar, o que eu chamo de atitude pessoal acaba sendo uma normalização da superação, temos que fazer o dobro do esforço para manter nosso lugar ao sol.


Um ponto essencial: o bem-estar sempre fez parte dos meus valores.

Estar bem comigo mesma e distribuir alegria é um sinal ótimo para saber se estou no bom movimento. Hoje, isto inclui cuidar dos meus limites físicos, avançar num ritmo talvez um pouco mais calmo. Com tempo para experimentar cada dia mais o prazer de viver fazendo o que amo. E com isto a mente se libera para criar e somos altamente eficazes. Penso até em escalonar meu saber com tecnologia. Claro que vou ter que fazer o dobro do esforço para conseguir um investidor-anjo que aposte em mim.


Sonhar e vivenciar a jornada da realização não tem idade, mas tem atitude de todas as pessoas!

A economia circular se aplica também para o S de Social: repensar e eliminar o que não nos serve mais, fazer manutenção da nossa máquina física, mental e emocional, e regenerar e redirecionar o nosso saber.


(1) BARRETT, R. The Seven Stages of Psychological Development. Publi­cação da Barrett Academy for the Advancement of Human Values (2021).

(2) CLT: é uma sigla que quer dizer Consolidação das Leis do Trabalho. Quem é contratado no sistema da CLT tem direitos determinados por estas leis.

(3) ESG: é uma sigla em inglês que significa environmental, social and governance, e corresponde às práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização.

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