• Vera Regina Meinhard

Vamos aprender juntas(os) com mais este caso de assédio sexual?

Em primeiro lugar, precisamos acolher a dor imensa e o stress psicológico da Dani Calabresa.
Em segundo lugar, precisamos utilizar cada vez mais estes exemplos para ensinar os homens que compactuam e cometem casos como este do Marcius Melhem.

Quando leio o artigo da Revista Piaui: O QUE MAIS VOCÊ QUER, FILHA, PARA CALAR A BOCA? (*) sinto meu estômago esmagado por um soco. Aquele soco na boca do estômago que deixa a gente sem fôlego e sem voz.


Minha luta desde pequenina sempre foi provocar as vozes caladas. Na época, queria ver as pessoas denunciando os abusos morais. Aqueles abusos de gente que se acha superior e pensa que pode se arrogar da dignidade das outras pessoas. O típico modelo comportamental do etnocentrismo. Talvez, por ter um foco voltado para autores como Emile Zola, Victor Hugo, Artur de Azevedo.


Há alguns anos me voltei para as questões de assédio sexual. Precisei estudar para descobrir que alguns fatos da minha vida, que identificava como estranhos, eram na realidade assédio sexual, pois eles envolviam constrangimento.

A minha sorte: desde criança sempre fui muito “atrevida” na minha fala. Nunca levei desaforo para casa de nenhum adulto: quem falava o que queria, ouvia o que não queria. Hoje tenho certeza que esta coragem de replica me salvou de avanços mais graves.

A cada vez que algum homem tentou abrir alguma frente para me assediar dei uma resposta direta e inteligente, e evitava causar constrangimento para o autor. Hoje sabendo do que se tratava, eu juro que teria feito todo o necessário para constrangê-los. Na realidade, eu ficava sempre com aquela sensação de que a culpa era minha.

Isso acontece porque esse ato em si não defini estes homens. Afinal, “eu conheço essa pessoa e ele não seria capaz “: ele é um pai legal, um amigo querido, um filho exemplar. Precisaria desafiar minha falsa segurança psicológica para entender que sim, era um assédio. Fui estudar e entendi que ele podia ser tudo aquilo e também um assediador.
Isso significa que ele é sim responsável pela sua conduta como assediador!

Foi somente no momento do movimento “me too” que eu decidi parar e rever alguns destes momentos e realmente tirar os véus e poder aceitar que eu, mesmo com toda minha força e determinação que assustava muitos homens, também tinha sido vítima de assédios sexuais. Era uma privilegiada por conseguir afastar qualquer segundo passo. Difícil de dizer o que me protegeu, acredito que foi minha forte negação dos fatos e minha insanidade em acreditar e ter fé na justiça.

Ouvindo a entrevista do Marcius no UOL (**) tive também uma forte sensação de tristeza.

Nossa educação continua contribuindo com a construção do lado monstrinho dele e dos outros assediadores. Sim, estes mesmos homens que são bons pais, bons filhos, bons amigos.

Queria que aprendêssemos mais com estes casos e finalmente evoluíssemos.
A punição, é sim necessária para que outros homens entendam que assédio é crime e serão sempre punidos.

Para que qualquer organização se oriente para uma evolução cultural que deixe claro que assédio sexual é inaceitável, ela precisa declarar isto. Só assim, “eles” poderão entender que seu cargo de homem poderoso inclui responsabilidades com as pessoas ao invés do direito de se arrogar da dignidade delas. O exemplo da Globo no tratamento desta questão é, para mim, inaceitável. Ela conseguiu provas suficientes na investigação do compliance para demiti-lo, então precisa dizer que foi por comportamento indevido com as mulheres. Só assim, outros homens da organização refletirão sobre seus comportamentos. Se antes não sabiam que isso é feio, machuca e é ilegal, agora sabem.

Esta declaração é também essencial para que outras mulheres se sintam em segurança e tenham coragem para denunciar outros casos de assédio.

Precisamos acabar com a necessidade atual de colher provas com várias vítimas para acreditar em uma mulher. No caso de João de Deus precisamos do relato de 330 vítimas para colocar em dúvida sua palavra, no de Harvey Weinstein de mais de 100, no do médico Roger Abdel Massif mais de 60. No do Marcius temos por enquanto 12 vítimas e 31 testemunhas.

Quantas mais precisamos?

Estes casos também devem ser acompanhados de processos na justiça para construirmos uma cultura capaz de julgar homens assediadores ao invés de termos comparsas defendendo outros homens. Este foi o caso do processo da Mari Ferrer em Florianópolis. Da maneira como as coisas têm sido conduzidas podemos perceber que nada evoluiu muito desde o caso do assassinato de Ângela Diniz em 1976!

Precisamos evoluir e construir uma cultura na qual assédio realmente é crime:
NÃO é NÃO!

Esta conduta precisa ser penalizada de forma a criar aprendizado ao invés de apenas uma pausa na vida de um homem branco, heterossexual e economicamente poderoso. Precisa ser algo bem diferente de ficar um pouco no anonimato e voltar para sua vida e carreira sem nenhuma consequência.

Aqui reside minha questão:
como coordenar isto de forma a promover a mensagem para toda sociedade, criar uma nova mentalidade e sair deste círculo vicioso?

Quero ver estes fatos utilizados para favorecer a educação. A aquisição de conhecimento nos permite ter escolhas conscientes, aquelas que, do meu ponto de vista, nos definem.

Minha vontade de democratizar o conhecimento e o autoconhecimento esteve muito mais relacionada com o “dar vozes” aos oprimidos e provocar a voz das pessoas do bem, para poder contrabalancear o poder dos maus, sempre tão ativos nos seus gritos e ações. Hoje quero que o conhecimento e o autoconhecimento também sejam vetores de evolução de todos(as).

Quando temos informações que nos permitem entender que nossos atos estão afetando a subjetividade de outra pessoa, causando constrangimento e estresse podemos escolher mudar. Podemos entender que temos comportamentos desprezíveis e mesmo puníveis pela lei e querer evoluir para ser um ser humano melhor.

Por mais que esteja enojada com o caso, confesso que fiquei aqui me perguntando como deveria ir além. Como deveria agir diante de um homem dizendo que agora entende que fez coisas malvadas e que antes não sabia que estava cometendo abuso sexual?

Além de ter punição pela organização GLOBO e pela justiça da lei, qual seria a melhor ação para criar espaços de aprendizado? Como utilizar estes casos para que mais homens aprendam e mudem por si mesmos ao invés de continuarem atuando até serem denunciados?

Marcius, eu preciso que você confesse para eu acreditar em você!


Agora que sabe quão feio é este ato, sei que deve doer se confessar assediador. No entanto, o primeiro passo para que as desculpas possam ser acolhidas é o reconhecimento do erro de maneira ampla e total. É preciso se aceitar como tal para evoluir.


Como um adicto, enquanto ele se acredita sem o vício, jamais dará um passo para querer ficar limpo.

Eu só consigo acreditar em você Marcius quando parar de negar.

Quando mostrar que realmente entende que a Dani podia sim continuar olhando para você e te convidar para ir para a Disney. Quando parar para pensar no quanto ela queria acreditar que estava equivocada. Acreditar que estava em segurança e que você o amigo, jamais estaria fazendo isso realmente.

Eu queria que você além de reconhecer que tinha comportamentos horríveis como diz, pedisse desculpas abertamente para a Dani e para todas as mulheres.
Eu queria que falasse para outros homens o que realmente aprendeu com isso, que seu choro da entrevista no UOL fizesse outros nem começarem.

Eu Queria também que seu choro fosse de total reconhecimento de seus atos e da vergonha que sente de si mesmo.

Perdão e aprendizado sim, sem consequências jamais! Reconstrução sim! Continuidade sem reconhecimento jamais!

E você? O que você quer do Marcius? O que aprende?

(*) (https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-que-mais-voce-quer-filha-para-calar-boca/)

(**) (https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/12/06/existe-assedio-sem-contato-fisico-especialistas-dizem-que-sim.htm)

Post originalmente publicado em 10/12/2020 em https://www.linkedin.com/pulse/vamos-aprender-juntasos-com-mais-este-caso-de-ass%C3%A9dio-meinhard/

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