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O Medo e a Ganância

 

Medo para mim é um sentimento que permeia a vida de cada ser deste planeta e faz parte do inconsciente coletivo. Falo daquele medo ligado ao “como será o dia de amanhã, e depois de amanhã”. Relacionado com uma certa ausência daquela capacidade em acreditar que tudo vai dar certo, a fé.

 

A ganância entendo como uma estratégia, individual ou coletiva, colocada em prática por algumas pessoas para fugir do encontro com o sentimento do medo. Uma reação que leva a estocar tudo que pode. A querer “ter poder” sobre tudo e sobre todos. Uma escolha que foge da vivência com o medo. Um abandono do aprender a lidar com ele para perceber que é possível ter confiança na vida. Ao invés disso, criam para si a ilusão de se prevenirem de toda incerteza sobre o amanhã.

 

Os acontecimentos desta nova década me deixam perplexa sobre a dança da ganância. Vamos relembrar apenas quatro destes momentos. O rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, em novembro de 2015, que causou danos irreparáveis ao meio ambiente e as famílias locais. O acidente de avião da LaMia que matou dezenas de pessoas, em novembro de 2016. As desculpas públicas da Odebrecht, em dezembro 2016, que oficializou uma quantidade absurda de políticos envolvidos nos escândalos de corrupção da lava jato. As rebeliões nas prisões de norte a sul do Brasil, em janeiro de 2017, com a carnificina rolando solta e os bandidos nas ruas assombrando todo mundo.

 

Venho refletindo sobre a ganância e a negação da realidade. Esta catástrofe área do dia 29 de novembro colocou a América do Sul numa dor imensa. Como se isso não fosse suficiente, 4 dias depois entramos num estado de surpresa desagradável com a revelação da causa do acidente: uma pane seca.  

 

O caso do acidente da LaMia é o que mais me sensibilizou em termos de atitude humana pela sua proximidade entre o poderoso e os impactados. Imaginar que um homem que deveria velar pela segurança de pessoas que nele confiaram estava, muito pelo contrário, tomando riscos como se estivesse sentado diante de um jogo de vídeo game, me causa pavor. O sistema educacional e mediático alimenta o desprezível par da ignorância e do desejo pelo fútil. Permitimos que a ganância lidere os pensamentos e as decisões. Os manipuladores das massas são eles mesmos manipulados por seu medo. Colocam em risco o universo sem nenhum transtorno na consciência.

 

Para mim, isto confirma a capacidade de negação da realidade. Negação que se torna assustadora quando ela domina as pessoas que tem o poder de decisão sobre questões que podem impactar diretamente a vida de outras. Estas deveriam ser as pessoas mais ligadas a realidade. No entanto, para algumas, este  não é o caso. Dirigem os negócios como se estivessem jogando, tomam riscos que podem abalar a vida de muitas pessoas sem o menor constrangimento. Riscos que se concretizam.

 

Quantas pessoas dirigindo organizações impactam a vida de várias outras negando quotidianamente a responsabilidade sobre as consequências de suas decisões? A negação da responsabilidade domina muitos poderosos que vivem completamente desconectados da realidade vivida pela maioria da população.

 

Este fenômeno é tão impressionante que o sócio da LaMia esqueceu-se que era também o piloto e estava diretamente implicado no seu suposto jogo de vídeo game. Sua negação sobre as consequências das decisões tomadas como acionista do negocio e baseadas exclusivamente nos resultados financeiros levou-o a própria morte. Por ironia do destino, ele era acionista e piloto ao mesmo tempo.

 

Quanto tempo levaremos para desenvolver lideranças mais sustentáveis? Já parou para pensar nisso? Qual o seu poder? Como o utiliza?

 

Hoje, a Oxfam divulgou dados do relatório, intitulado “Uma economia para os 99%” que será apresentado esta semana no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Apesar de todas as agendas positivas cridas pela ONU em prol do desenvolvimento sustentável foi constatado que a desigualdade vem crescendo a cada edição do estudo e cada vez mais rápido. A fortuna das oito pessoas mais ricas do mundo é igual ao patrimônio de 3,6 bilhões de pessoas que representam metade da população mundial mais pobre. No início da década, eram 388 indivíduos com a mesma proporção da riqueza de 3,5 bilhões de pessoas.

 

Desenhando esta linha temporal, meu coração fica acelerado e dolorido. Percebo que os anos passam e nos encontramos com a questão da ganância no topo dos anúncios. Isto certamente me deixa apreensiva e poderia me levar para aquele lugar do medo pelo futuro.

 

Não!! Continuo vivendo meu propósito! Acreditando que o melhor caminho é exercer nosso poder individual. Vivemos as duas situações quotidianamente. Em alguns momentos fazendo parte do sistema que decide o que colocamos no mercado em termos de serviços e produtos.  Em outros, decidindo o que consumir.  Para exercer nossas escolhas com responsabilidade é preciso entender nossos valores e se manter conectados a eles.

 

Olho em volta e vejo os movimentos que levam ao desenvolvimento sustentável e sigo acreditando que a melhor solução é a conexão com a nossa essência. Nosso poder individual é imenso. Tenho plena convicção que os valores que propiciam o desenvolvimento sustentável estão mais presentes que os predadores. É fundamental que exerçamos individualmente nossa força para refletir sobre o impacto de nossas decisões quotidianas.

 

Individualmente somos fortes e coletivamente somos ainda mais fortes. Vejo cada dia mais pessoas nesta trilha. A transformação está ocorrendo. Verdade, muito lentamente. Saber que outros acreditam na necessidade desta mudança de paradigma torna meus passos mais seguros para seguir contribuindo com a construção de um mundo melhor e mais justo para cada um e para todos.

 

Quero muito contar com você nesta jornada!

 

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